Documentos que expunham falhas em programas como o F-35 saem do site público após 25 anos de disponibilidade; senadora Elizabeth Warren acusa a gestão de comprometer a transparência prometida ao Congresso
O Pentágono, removeu de seu site público, décadas de relatórios anuais sobre testes de armamentos, alegando risco de que adversários usem inteligência artificial para explorar os dados.
A medida, confirmada em um comunicado oficial do Departamento de Defesa dos EUA, transfere 25 anos de avaliações não classificadas sobre o desempenho de grandes programas militares, para uma rede restrita, acessível apenas a militares e servidores com credencial CAC (Common Access Card), documento emitido somente após verificação de antecedentes pelo FBI.
A decisão gerou críticas de parlamentares, que veem na medida um recuo na transparência prometida pela própria diretora do órgão responsável pelos testes.
Justificativa oficial cita vulnerabilidades de infraestrutura crítica
Segundo o Pentágono, a diretora do gabinete de testes operacionais e avaliação de armamentos (DOT&E, na sigla em inglês), Amy Henninger, restringiu o acesso aos relatórios como medida para impedir que inteligência artificial ajudasse adversários estrangeiros a compilar informações públicas em perfis detalhados de vulnerabilidades militares dos Estados Unidos.
Um porta-voz da pasta afirmou que a mudança foi conduzida internamente sob a autoridade estatutária de Henninger, com base em sua experiência em tecnologias opostas e de contra-inteligência artificial.
De acordo com o Pentágono, os relatórios não estão de fato bloqueados para parceiros de defesa, mas sim transferidos para um ambiente seguro, restrito a pessoal autorizado que atue diretamente na missão de defesa — argumento que, segundo a pasta, não representa uma restrição de acesso, mas uma reorganização da forma de disponibilização.
Órgão de testes já vinha sofrendo cortes de pessoal e de escopo
A restrição de acesso aos relatórios ocorre em meio a um processo mais amplo de enxugamento do DOT&E promovido pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, que assumiu o cargo prometendo comandar "o departamento mais transparente da história".
Segundo dados do Government Accountability Office (GAO), o quadro de pessoal do gabinete de testes foi reduzido de 126 para 30 funcionários, e o número de programas sob supervisão do órgão também caiu de forma expressiva — de 251 para 152, segundo levantamento do Federal News Network, uma redução que já havia retirado da lista de fiscalização até o fuzil de assalto XM7 do Exército americano.
Ainda em 2025, outro episódio já havia sinalizado o enfraquecimento da fiscalização pública: pela primeira vez em mais de 20 anos, autoridades bloquearam a divulgação do relatório anual do GAO sobre o programa F-35, classificando o documento como "Informação Não Classificada Controlada" — categoria que, embora não represente sigilo pleno, restringe a circulação pública.
Senadora acusa diretora de contradizer compromisso firmado no Congresso
A senadora democrata por Massachusetts, Elizabeth Warren, membro do Comitê de Serviços Armados do Senado, classificou a decisão como um retrocesso perigoso. Em declaração à Bloomberg News, a parlamentar afirmou que esconder relatórios que expõem falhas em armamentos pode custar a vida de militares e desperdiçar bilhões de dólares dos contribuintes.
Warren recuperou uma promessa feita por Henninger durante sua audiência de confirmação no Senado, quando questionada se garantiria que os relatórios do gabinete de testes informassem o público "ao máximo possível" sobre problemas que precisam ser corrigidos para garantir a segurança dos armamentos.
Na ocasião, Henninger respondeu afirmativamente, comprometendo-se a agir "na máxima extensão possível". Diante da nova restrição, a senadora afirmou que a medida "levanta questões sobre se a doutora Henninger induziu o Congresso deliberadamente ao erro". Procurada, Henninger não respondeu ao pedido de comentário.
Não é a primeira vez que a disponibilização desses relatórios é questionada. Segundo o Federal News Network, já durante o governo Biden o gabinete de testes enfrentou pressão para remover detalhes de desempenho da versão pública do relatório anual, o que também motivou críticas de Warren à época.
Base legal dos relatórios é apontada como obstáculo à restrição
Especialistas em política de defesa questionam a base jurídica da medida. Greg Williams, diretor de política de defesa do Project on Government Oversight, afirmou que a lei de 1983 que criou o gabinete de testes determina expressamente que os relatórios anuais sejam não classificados e não exijam controles de disseminação.
Ele também citou uma lei de 2011 que, segundo sua leitura, exige que todo relatório não classificado entregue ao Congresso — incluindo a avaliação anual de testes — seja disponibilizado ao público por meio de publicação on-line. Para Williams, a redação da legislação é suficientemente clara a ponto de tornar difícil contornar a exigência sem uma nova decisão do Congresso.
Um precedente histórico é mencionado no material: os relatórios já haviam sido retirados do site do Pentágono por um breve período após os atentados de 11 de setembro de 2001, quando autoridades alegaram necessidade de limitar sua circulação. Mesmo assim, cópias impressas continuaram sendo fornecidas a organizações de imprensa — o que não ocorre, até o momento, no episódio atual.

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