Após 270 dias embarcados e denúncias de escassez de suprimentos, chefe de operações navais promete mudanças na logística de reabastecimento dos porta-aviões
O chefe de Operações Navais dos Estados Unidos, almirante Daryl Caudle, anunciou nesta quarta-feira (26), que a Marinha está revendo seus procedimentos de abastecimento, e avaliando novos portos de escala, incluindo destinos na África e na Índia.
Tais medidas, foram tomadas depois que o porta-aviões USS Abraham Lincoln, cumpriu missão de 270 dias que foi marcada por denúncias de escassez de alimentos e produtos de higiene. As declarações foram dadas a jornalistas em Norfolk, na Virgínia, sede do Comando das Forças de Frota da Marinha dos EUA.
Reabastecimento foi o ponto crítico
Segundo Caudle, o Lincoln passou 250 dias sem realizar uma escala portuária, período em que a tripulação enfrentou dificuldades de reabastecimento.
O almirante não confirmou integralmente os relatos e as fotografias que circularam mostrando bandejas de refeitório praticamente vazias, mas reconheceu falhas pontuais na distribuição de itens considerados essenciais pelos marinheiros.
"Isso normalmente não tem a ver se tem ou não proteína ou a quantidade certa de carboidratos e vegetais chegando", afirmou Caudle. "Isso é sobre as coisas que, os marinheiros esperam além disso — os itens de loja de bordo, como bebidas energéticas, produtos de higiene e café."
As denúncias, no entanto, foram além da alimentação. Familiares e tripulantes relataram deterioração da saúde mental a bordo do navio, com ao menos duas tentativas de suicídio registradas durante o período, além de escassez severa de itens básicos de higiene, como sabonete e pasta de dente.
De acordo com autoridades da própria Marinha, o abastecimento precisou ser priorizado ao longo do desdobramento, com produtos de higiene ficando em segundo plano diante da necessidade de garantir o fornecimento de alimentos.
Conflito com o Irã e destruição de base afetaram logística
O almirante atribuiu, parte das dificuldades ao contexto operacional da chamada operação Epic Fury — nome dado pelo Pentágono ao conflito com o Irã durante o qual o Lincoln operou. "É uma crítica justa dizer que houve alguns ajustes no início da Epic Fury até conseguirmos acertar o reabastecimento. Acho que estamos em uma boa posição quanto a isso agora", disse o almirante.
Entre os obstáculos logísticos citados está a destruição da Naval Support Activity Bahrain, um dos principais polos de suprimentos da Marinha dos EUA no Oriente Médio, atingida no início do conflito.
Caudle não detalhou publicamente como a força está superando esse desafio estrutural, mas afirmou que já há trabalho em curso para preparar o porta-aviões USS Theodore Roosevelt para seu próximo desdobramento, previsto para a mesma região ainda neste outono.
Quênia, Diego Garcia e Índia entram no radar de novas escalas
Caudle revelou que está trabalhando com o vice-almirante Curt Renshaw, comandante da Quinta Frota dos EUA, para mapear possíveis portos de escala em locais considerados menos vulneráveis a ataques iranianos. Entre as opções citadas estão o Quênia, no continente africano, a ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico, e a própria Índia.
O almirante reconheceu, porém, que essas alternativas mais distantes implicam o que chamou de "imposto de trânsito" — ou seja, tempo adicional fora da área de operações e maior gasto de recursos para deslocamento até esses portos e o retorno à zona de combate.
"Preciso trabalhar com muito cuidado junto ao comandante da Quinta Frota para garantir que haja entendimento da previsão operacional e das operações de combate que permitam que algo assim seja feito", declarou Caudle. Segundo ele, o comandante do Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM), almirante Brad Cooper, também está engajado na discussão.
"Ele entende o que estamos pedindo da nossa Marinha... Estou confiante de que aquilo que aprendemos com o Abe eu poderei aplicar para fazer isso de forma mais eficaz à medida que outros grupos de ataque de porta-aviões entrarem no teatro de operações."
Comunicação com famílias deve mudar em próximos deployments
Além das mudanças logísticas, Caudle indicou que pretende aprimorar a comunicação sobre eventuais extensões de desdobramento, na tentativa de reduzir o desgaste emocional relatado por famílias de militares durante o período em que o Lincoln permaneceu embarcado sem data definida de retorno.
O almirante mencionou buscar maior "compartilhamento de risco" junto ao comando combatente para oferecer previsibilidade mais clara às tripulações.
"As famílias, quando não veem um ponto final definido para poderem planejar suas próprias vidas, isso gera muito estresse para os marinheiros", disse Caudle. "Se eu conseguir deixar a extensão real e o momento em que estaremos voltando um pouco mais definidos, acho que isso alivia boa parte da tensão que os marinheiros sentem."

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