Declaração foi feita durante encontro com Zelensky em Ancara; presidente americano detalha como a defesa em camadas do grupo de ataque interceptou todos os projéteis, mas episódio específico ainda não tem confirmação independente
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou nesta quarta-feira (8), durante a cúpula da OTAN em Ancara, na Turquia, que forças iranianas dispararam 111 mísseis contra o porta-aviões USS Abraham Lincoln (CVN-72) em um intervalo de aproximadamente uma hora.
Segundo Trump, todos os projéteis foram interceptados pelas defesas americanas, a maior parte por sistemas Patriot. A fala ocorreu ao lado do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, durante entrevista coletiva à margem do encontro da aliança militar.
Declaração e gafe
Durante sua fala, Trump cometeu uma gafe: "Tivemos 111 mísseis disparados pela República Islâmica do Japão. Eles foram disparados contra o porta-aviões ao longo de cerca de uma hora, 111 mísseis contra um navio muito caro, e cada um daqueles mísseis foi derrubado, a maioria por Patriots, mas também por outros meios."
O comentário surgiu de forma inesperada, durante resposta a uma pergunta sobre a possibilidade de a Europa fabricar, sob licença, interceptores do sistema Patriot para a Ucrânia. Trump classificou o Abraham Lincoln como "um dos porta-aviões mais bonitos do mundo" antes de relatar o episódio.
Contexto: a Operação Epic Fury e o histórico de ataques reivindicados
O grupo de ataque do USS Abraham Lincoln foi remanejado do Indo-Pacífico para o Oriente Médio em janeiro de 2026, como parte de um reforço militar norte-americano na região antes do início da Operação Epic Fury, em fevereiro.
A força-tarefa conta com contratorpedeiros e cruzadores equipados com mísseis Tomahawk, além da Ala Aérea Embarcada 9, que opera caças furtivos F-35C, F/A-18 Super Hornet, aeronaves de guerra eletrônica e helicópteros. O porta-aviões foi escoltado pelos contratorpedeiros classe Arleigh Burke USS Frank E. Petersen Jr., USS Michael Murphy e USS Spruance.
Não há, até o momento, confirmação oficial independente do episódio específico de 111 mísseis relatado por Trump, tampouco registro documental público equivalente ao volume descrito pelo presidente americano.
Como funcionou a defesa antimísseis
Segundo especialistas e veículos especializados consultados, a arquitetura de defesa do grupo de ataque do USS Abraham Lincoln opera em camadas sucessivas, desenhadas justamente para cenários de saturação como o descrito por Trump.
A primeira camada é a detecção antecipada: aeronaves E-2D Hawkeye, plataformas de alerta aéreo embarcadas, e radares de longo alcance dos próprios navios da esquadra localizam as ameaças ainda em fase de voo, antes de se aproximarem do porta-aviões.
A partir daí, entram em ação os contratorpedeiros classe Arleigh Burke que escoltam o Lincoln — como o USS Frank E. Petersen Jr., o USS Michael Murphy e o USS Spruance —, equipados com o sistema de combate Aegis e radares SPY, capazes de rastrear simultaneamente mais de cem alvos.
Esses navios utilizam mísseis interceptadores da família Standard Missile — SM-3, voltado à interceptação de ameaças balísticas em fase exoatmosférica, e SM-6, de alcance estendido e uso contra ameaças aéreas e de cruzeiro — para abater os projéteis ainda a distância segura do porta-aviões.
Caso algum míssil ultrapasse essa barreira, o próprio Abraham Lincoln dispõe de sistemas de defesa terminal instalados no convés: o Evolved Sea Sparrow (ESSM), o Rolling Airframe Missile (RAM) e o canhão de tiro rápido Phalanx CIWS, de defesa em curtíssimo alcance, última camada antes de um eventual impacto.
Segundo o CENTCOM, baterias terrestres Patriot e THAAD (Terminal High-Altitude Area Defense), posicionadas em bases da região, também integram a rede de defesa contra mísseis balísticos e drones iranianos, embora o número exato de interceptores empregados nesses sistemas não tenha sido divulgado.
Analistas ouvidos descrevem esse tipo de episódio, como parte de uma dinâmica recorrente no conflito: mísseis iranianos são lançados, as defesas americanas são acionadas e os projéteis interceptados, enquanto Teerã tende a amplificar o resultado para fins de mensagem estratégica.
Robert Farley, professor de segurança nacional da Universidade de Kentucky, afirmou que afundar um porta-aviões como o Abraham Lincoln seria "extremamente difícil", já que qualquer unidade desse porte conta com múltiplas camadas de defesa, incluindo navios de escolta e armamentos de engajamento próximo.
A doutrina de saturação e o desgaste do arsenal iraniano
A hipótese de um ataque com grande volume de mísseis em janela curta de tempo é consistente com a doutrina militar iraniana de negação de acesso e área (A2/AD), que prevê o uso de ondas coordenadas de mísseis e drones para sobrecarregar as defesas navais americanas — esgotando os interceptores das embarcações de escolta, saturando os sistemas de radar e buscando abrir brechas para que alguns projéteis atinjam alvos de alto valor.
A estratégia não depende necessariamente de destruir o porta-aviões, mas de aplicar pressão contínua, forçando a esquadra a operar na defensiva e a consumir interceptores de alto custo — o que, por si, já representa um desgaste relevante mesmo quando o ataque não atinge o alvo.
Segundo apuração da agência Reuters, publicada em 27 de março, com base em cinco fontes ligadas à inteligência americana, os Estados Unidos conseguiam confirmar com certeza a destruição de aproximadamente um terço do arsenal de mísseis do Irã até aquele momento, enquanto outro terço permanecia com status incerto — classificado como provavelmente danificado, destruído ou enterrado.
Escalada recente e fim do memorando de entendimento
A fala de Trump em Ancara ocorreu no mesmo dia em que o presidente declarou encerrado o memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, após uma nova troca de ataques.
O acordo, assinado em 17 de junho por Trump e pelo presidente iraniano Masoud Pezeshkian, com mediação do Paquistão, havia estabelecido um cessar-fogo de 60 dias, sob o qual os EUA se comprometiam a suspender o bloqueio naval ao Irã e Teerã concordava em reabrir o Estreito de Ormuz à navegação.
Segundo o CENTCOM, as forças americanas conduziram ataques contra mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa aérea, redes de comando e controle, radares costeiros e capacidades de mísseis antinavio, além de mais de 60 pequenas embarcações ligadas ao Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (CGRI).


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