Aeronave da Boeing, sucessora do F-22, integrará sensores, motor adaptativo e enxames de drones em programa orçado em bilhões de dólares pela USAF
A Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) avança no desenvolvimento do F-47, seu novo caça de 6ª geração, com custo unitário estimado em cerca de US$ 300 milhões (aproximadamente R$ 1,65 bilhão), segundo reportagem publicada pelo site especializado Simple Flying, nesta sexta-feira (17).
O programa, batizado de Next Generation Air Dominance (NGAD) e conduzido pela Boeing, prevê a produção de ao menos 185 unidades para substituir o F-22 Raptor como principal caça de superioridade aérea da força americana, em meio à crescente competição estratégica com a China no Indo-Pacífico.
O valor projetado torna o F-47 uma das aeronaves de combate mais caras já desenvolvidas pelos Estados Unidos, superando em cerca de três vezes o custo médio de um F-35 Lightning II, que varia entre US$ 80 milhões e US$ 100 milhões por unidade, dependendo da variante.
Para efeito de comparação, o F-15EX custa em torno de US$ 90 milhões, enquanto o F-22, aeronave que o F-47 está destinado a substituir, chegou a um custo unitário de aproximadamente US$ 150 milhões ao final de sua linha de produção.
Um caça pensado como sistema integrado
Diferentemente das gerações anteriores de caças, o F-47 não deve operar apenas como uma plataforma isolada comandada por um piloto. O conceito por trás do programa NGAD prevê um sistema-de-sistemas, no qual a aeronave tripulada atua conectada a uma rede de sensores, plataformas colaborativas e aeronaves não tripuladas, ampliando a capacidade de coleta de dados e de resposta em cenários de combate.
Entre as características esperadas para o F-47 estão alcance de 1.000 milhas náuticas (1.852 km) e velocidade superior a Mach 2. Também há expectativa de que a propulsão seja realizada por um motor adaptativo, tecnologia em desenvolvimento pela General Electric Aerospace e pela Pratt & Whitney sob programas da USAF.
Um motor desse tipo ajusta automaticamente sua configuração de fluxo de ar conforme a necessidade da missão, entregando mais empuxo em combate, maior eficiência de combustível em cruzeiro e maior capacidade de resfriamento para os sistemas eletrônicos da aeronave.
A aeronave deve contar ainda com radar AESA avançado, sensores de busca e rastreio infravermelho (IRST) e um sistema de sensores infravermelhos distribuídos, em conceito semelhante ao empregado no F-35, capaz de oferecer percepção situacional em quase 360 graus.
Segundo especialistas em defesa consultados pela Simple Flying, o F-47 deverá utilizar de forma extensiva um assistente de inteligência artificial para gerenciar o grande volume de dados dos sensores e sugerir cursos de ação ao piloto, podendo inclusive ter controle limitado sobre funções como guerra eletrônica e contramedidas.
Orçamento cresce até 2028 e depois recua
O pedido orçamentário do ano fiscal de 2027 destina cerca de US$ 5 bilhões para acelerar o desenvolvimento do NGAD, valor que, somado a alocações anteriores, aproxima o financiamento total do programa de US$ 8,5 bilhões.
De acordo com dados citados pela revista Air & Space Forces Magazine, os investimentos devem seguir a seguinte trajetória, em bilhões de dólares: US$ 3,45 bi em 2026, US$ 5,04 bi em 2027, US$ 5,25 bi em 2028 — pico do programa —, com recuo a partir de então para US$ 4,12 bi em 2029, US$ 3,29 bi em 2030 e US$ 2,95 bi em 2031, ano previsto para o início da fase operacional da aeronave.
Reportagens de outros veículos especializados corroboram o cronograma: a Boeing iniciou a fabricação do primeiro exemplar em St. Louis, com voo inaugural previsto para 2028. O programa NGAD teve boa parte de seu desenvolvimento mantida em sigilo, incluindo testes de demonstradores em escala real conduzidos tanto pela Boeing quanto pela Lockheed Martin — esta última eliminada da disputa em 2024, quando o Pentágono chegou a suspender temporariamente o programa diante da escalada de custos.
Com fluxo de produção estimado entre 20 e 30 aeronaves por ano, a fabricação da frota-base de 185 unidades deve se estender até meados da década de 2030, podendo alcançar a década seguinte. Caso o orçamento se mantenha robusto e a pressão representada pela China continue sendo prioridade para formuladores de política americana, a frota total de F-47 pode crescer para entre 250 e 300 unidades.
Operação conjunta com drones de combate colaborativo
Um dos aspectos centrais do programa é a integração do F-47 com os Collaborative Combat Aircraft (CCA), drones avançados capazes de realizar ataques cinéticos, guerra eletrônica, vigilância, reconhecimento e distribuição de dados táticos para outras plataformas envolvidas na missão.
Segundo a reportagem, a USAF deve destinar cerca de US$ 8,5 bilhões ao desenvolvimento dessas aeronaves não tripuladas até o fim da década, com plano de aquisição de até 1.000 unidades — a proposta é que cada F-47 opere ao lado de dois ou mais CCAs.
Na prática, os CCAs devem voar à frente da formação principal, penetrar espaços aéreos contestados, localizar e neutralizar sistemas de defesa aérea inimigos, degradar sistemas eletrônicos adversários e repassar informações sobre alvos de alto valor para ataques subsequentes — absorvendo parte do risco que, de outra forma, recairia sobre a aeronave tripulada.
Corrida com a China acelera o programa
O desenvolvimento do F-47 ocorre em paralelo aos avanços chineses no chamado Chengdu J-36, aeronave apontada como concorrente direta de sexta geração e que já teria passado por avaliações aéreas, segundo informações disponíveis até o momento — não há confirmação oficial detalhada sobre o estágio de maturidade do programa chinês.
Para planejadores militares americanos, o alcance de 1.000 milhas náuticas do F-47 é considerado estratégico, já que permitiria que grupos de ataque de porta-aviões dos EUA operassem fora do alcance de mísseis balísticos chineses, com o caça abrindo caminho para ataques subsequentes de aeronaves de quinta geração baseadas em porta-aviões.
Levantamentos recentes também apontam que a imprensa oficial chinesa tem intensificado uma campanha de questionamento do programa americano, com foco justamente no custo unitário elevado, na dependência dos Estados Unidos de terras raras controladas por Pequim e na capacidade industrial americana de produzir a aeronave em escala relevante — argumentos que, segundo analistas ocidentais, buscam desgastar a credibilidade do NGAD.

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