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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Kawasaki EC-2 realiza primeiro voo no Japão e reacende debate sobre versão naval do C-390 na FAB

A JASDF colocou no ar sua primeira aeronave jammer stand-off derivada do C-2, criando um paralelo direto com o caminho que o C-390 Millennium começa a trilhar no Brasil — de cargueiro tático a plataforma multimissão de vigilância e patrulha marítima


A Força Aérea de Autodefesa do Japão (JASDF) realizou no mês de março do ano corrente, o primeiro voo do Kawasaki EC-2, na Base Aérea de Gifu. A aeronave, derivada do transporte militar Kawasaki C-2, foi concebida como um stand-off jammer, capaz de interferir em radares e sistemas de comunicação inimigos a longas distâncias, operando fora do alcance das defesas adversárias, e deverá substituir o EC-1, que faz parte da JASDF desde 1986 e do qual permanece em operação apenas uma unidade. 

O evento marcou mais do que uma aparição técnica. Foi a consolidação de um modelo de desenvolvimento, que o Brasil observa com atenção, haja visto que Embraer e Força Aérea Brasileira (FAB) já formalizaram estudos para adaptar o C-390 Millennium — plataforma de porte e conceito semelhante ao C-2 japonês — a missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento, com ênfase em patrulha marítima. 

O ornitorrinco voltou — e mais perigoso do que nunca

Em um cenário onde aeronaves militares modernas tendem a seguir padrões de design cada vez mais semelhantes, o Japão surpreendeu ao colocar no ar um dos aviões mais incomuns já vistos. O apelido de "ornitorrinco" — já usado no passado para o antecessor EC-1 — ressurgiu imediatamente entre entusiastas de aviação ao redor do mundo. A aeronave chama atenção pelo nariz volumoso e bulboso, duas grandes carenagens no dorso da fuselagem e duas adicionais nas laterais da seção de cauda. 

As formas incomuns não são acidente estético. O EC-2 incorpora tecnologia derivada de equipamentos de guerra eletrônica japoneses anteriores, incluindo o sistema de contramedidas eletrônicas J/ALQ-5 e sistemas de medição de ondas de rádio. O radome dianteiro abriga as antenas do sistema eletrônico de detecção e interferência, enquanto as carenagens escondem sensores e equipamentos de autoproteção. 

A designação experimental XEC-2 foi divulgada publicamente no fim de junho. Caso o desenvolvimento seja concluído conforme previsto, a versão operacional deverá ser conhecida como EC-2. 

O protótipo foi produzido por meio da conversão do C-2 de matrícula 68-1203, primeiro exemplar de produção do transporte militar japonês. Em 9 de junho, a aeronave foi formalmente incorporada ao Air Development and Test Wing, unidade da JASDF responsável pela avaliação de novos equipamentos. 

Uma missão em duas fases

O programa, anteriormente denominado C-2 SOJ, começou no ano fiscal de 2020 e é conduzido pelo Ministério da Defesa do Japão em duas fases. A primeira fase, entre 2020 e 2026, tem como objetivo estabelecer uma capacidade de interferência a distância contra enlaces de dados e integrar múltiplos subsistemas de guerra eletrônica em uma arquitetura embarcada. 

A segunda fase, prevista entre 2023 à 2032, concentra-se no aperfeiçoamento dos sistemas, melhoria da confiabilidade operacional e preparação da aeronave para implantação operacional completa. Os equipamentos individuais demonstraram suas funções em testes realizados fora da aeronave, mas sua operação conjunta ainda deverá ser comprovada durante os ensaios em voo. 

A capacidade específica de interferência contra radares está prevista para uma fase posterior — o que significa que o protótipo atualmente em testes não representa necessariamente a configuração final do EC-2, permitindo assim ao Japão, colocar em serviço uma capacidade inicial de bloqueio de comunicações enquanto continua desenvolvendo o jamming de radares, tecnicamente mais complexo. 

O Ministério da Defesa alocou ¥41,4 bilhões (US$ 254,6 milhões) ao desenvolvimento do EC-2, dentro de um pacote maior de ¥508,6 bilhões (US$ 3,13 bilhões) destinado a fortalecer as capacidades de coleta e análise de inteligência. O programa prevê a aquisição de quatro aeronaves, ampliando a capacidade atual representada pelo exemplar único do EC-1. 

RC-2 e EC-2: a dupla que fecha o círculo eletrônico

O EC-2 não opera de forma isolada. Segundo declarações do Ministério da Defesa japonês, o EC-2 e o RC-2 operarão conjuntamente: o RC-2 coletará dados sobre as fontes de sinais eletrônicos inimigos, enquanto o EC-2 se encarregará de bloqueá-las. Na prática, o RC-2 monta a chamada ordem de batalha eletrônica do adversário — identificando frequências, localizações e padrões de emissão — e o EC-2 transforma esse mapa em alvo. 

O RC-2, baseado na mesma plataforma C-2, realizou seu primeiro voo em 2018 e foi oficialmente entregue à JASDF em 2020. Opera a partir da Base Aérea de Iruma, sede do Grupo de Operações de Guerra Eletrônica japonês. A frota já está em expansão: uma fotografia registrada por um spotter em fevereiro de 2026 confirmou a produção de novos exemplares, e o pedido orçamentário do Ministério da Defesa para o ano fiscal de 2026 prevê a aquisição de mais uma unidade, ao custo de ¥53,9 bilhões — cerca de US$ 339,9 milhões.

O C-2 como plataforma: por que ele funciona

O C-2 é um cargueiro a jato de fabricação japonesa que ocupa uma posição intermediária entre modelos como o C-130 Hercules e o C-17 Globemaster III. Equipado com motores turbofan General Electric CF6, combina alta capacidade de carga, longo alcance e desempenho elevado — características essenciais para suportar os complexos sistemas embarcados no novo vetor de guerra eletrônica. 

É justamente esse conjunto de atributos que tornou o C-2 uma plataforma atrativa para as missões especializadas do RC-2 e do EC-2: volume interno generoso para alojar equipamentos, alcance para operar longe de bases avançadas e desempenho para atuar em áreas contestadas. 

O paralelo brasileiro: o C-390 no mesmo caminho

A lógica japonesa — converter um transporte tático em plataforma de missão especializada, etapa por etapa — é exatamente o modelo que o Brasil começa a trilhar com o C-390 Millennium. A semelhança não é apenas conceitual: as duas aeronaves ocupam nichos operacionais comparáveis. 

O C-390 é um bimotor a jato de transporte tático que carrega até 26 toneladas, com alcance de cerca de 2.800 km com carga máxima — desempenho que o posiciona entre o C-130 e o A400M europeu, em faixa próxima à do C-2 japonês.

No dia 26 de fevereiro de 2026, foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) um memorando de entendimento (MoU) entre o Comando da Aeronáutica (COMAER) e a Embraer para realizar, de forma coordenada e em comum acordo, estudos e análises conjuntas dos conceitos operacionais e viabilidade técnica para potencial adequação da plataforma KC-390 Millennium às missões de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (IVR), com ênfase à aplicação em Patrulha Marítima, com prazo de 12 meses, podendo ser prorrogado. 

Segundo o tenente-brigadeiro do Ar, Marcelo Kanitz Damasceno, Comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), o trabalho colaborativo com a Embraer tem evoluído de forma eficiente e estruturada, permitindo uma avaliação abrangente do KC-390 Millennium para as necessidades atuais e futuras da FAB, com grande potencial identificado para missões IVR e de patrulha marítima. 

A discussão ganhou contornos mais claros após declarações de Márcio Monteiro, vice-presidente de Inteligência de Mercado da Embraer Defesa & Segurança: a FAB teria procurado a Embraer com uma pergunta direta — se já existem vários KC-390 encomendados, seria possível usar essa plataforma para substituir o P-3 Orion em missões marítimas? A partir daí, a Embraer passou a trabalhar na análise de requisitos e configuração da aeronave. 

O programa também ganhou dimensão internacional. A Força Aérea Portuguesa acordou oficialmente sua intenção de se juntar aos estudos da Embraer e da FAB, anúncio feito na LAAD Defence & Security 2025, a maior feira de defesa da América Latina. 

A urgência por trás dos estudos

A substituição das aeronaves de patrulha marítima da FAB aproxima-se rapidamente, e a janela de decisão estratégica se estreita. A frota de P-3AM Orion está reduzida a uma única aeronave em condições de voo, e as unidades do Embraer P-95M Bandeirulha também demandam substituição próxima. 

É nesse contexto que o KC-390 IVR ganha relevância estratégica: a FAB já opera a plataforma, tem familiaridade com ela, e a cadeia logística já está estabelecida. Adicionar uma missão de vigilância marítima seria uma evolução orgânica da frota existente, sem a necessidade de introduzir um tipo de aeronave completamente novo. 

Em janeiro de 2026, a Elbit Systems divulgou um vídeo-conceito mostrando o C-390 operando como componente de uma rede naval integrada de sensoriamento, em conjunto com navios de superfície, veículos não tripulados e drones ISR de longa duração, voltada à detecção de ameaças como embarcações hostis e mísseis anti-navio disparados da costa. 

A empresa israelense já tem histórico concreto com a plataforma: equipou os KC-390 portugueses com sistemas de autoproteção e contramedidas eletrônicas desde 2019. 

O Japão levou cerca de três anos entre a decisão formal de converter o C-2 e o primeiro voo do RC-2, e outros oito até o EC-2 decolar. O caminho do C-390 para uma missão plenamente operacional de patrulha marítima dificilmente será mais curto — mas o primeiro passo, que é a existência de um estudo formal e estruturado, já foi dado.


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