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terça-feira, 21 de julho de 2026

Comandante do Centro de Inteligência do Exército Brasileiro detalha ameaças híbridas: do narcotráfico à ataques cibernéticos

Comandante CIE, detalhou panorama de ameaças estatais e não estatais ao país, incluindo atuação do PCC, do Comando Vermelho e de grupos cibernéticos ligados a atores estrangeiros

O general Carlos Eduardo Barbosa da Costa (2º da esq. para a dir.), comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), durante apresentação no quartel-general do Exército, em Brasília Foto: Reprodução / Estadão

O general de divisão, Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), apresentou nesta semana, no quartel-general da Força em Brasília, um diagnóstico das principais ameaças à segurança nacional. 

Em exposição de 20 minutos, o oficial detalhou como organizações criminosas e agentes cibernéticos, estatais e não estatais, operam no território brasileiro, movimentando cifras bilionárias tanto no tráfico de drogas quanto em ataques a sistemas digitais do país.

Durante a apresentação, Barbosa da Costa classificou as ameaças em três blocos: bandos organizados, organizações criminosas e ameaças cibernéticas, todos com motivações que alternam entre interesses financeiros e ideológicos. Segundo o general, algumas dessas organizações já exercem um "controle territorial limitado", desafiando a atuação do Estado em determinadas regiões do país.

O oficial afirmou que o crime transnacional ocupa posição central nas preocupações do CIE, destacando que a cadeia criminosa no Brasil não se resume ao Comando Vermelho (CV) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC), embora essas duas facções mantenham o maior portfólio de atividades ilícitas no país.

Geografia do narcotráfico

De acordo com o general, o Brasil está posicionado entre os três maiores produtores mundiais de cocaína — Colômbia, Peru e Bolívia — e o maior produtor de maconha da região, o Paraguai, funcionando como corredor logístico para o escoamento de drogas rumo à Europa e à Ásia.

O PCC controlaria a chamada Rota Caipira, mantendo articulação com cinco grupos criminosos que atuam no Peru e na Bolívia, além do Trem de Araguaia, organização venezuelana com presença registrada em Roraima. 

Já o Comando Vermelho manteria vínculos com um cartel peruano e com dois Grupos Armados Organizados Residuais (GAOR) — dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) —, utilizando a Rota do Solimões para exportar cocaína para Europa, Ásia, África e Oceania.

Segundo estimativas do CIE, o mercado interno brasileiro movimenta cerca de 8 mil toneladas anuais de maconha e skunk, além de 170 a 200 toneladas de cocaína, gerando receita bruta estimada em R$ 30 bilhões. Já a exportação do entorpecente pelo território nacional giraria em torno de 250 toneladas por ano, resultando numa receita bruta aproximada de R$ 50 bilhões, conforme apresentado pelo general.

Na região da Cabeça do Cachorro, na Amazônia, três grupos colombianos articulados ao Comando Vermelho atuariam não apenas no narcotráfico, mas também em mineração ilegal e extorsões em território brasileiro — atividades que, segundo o general, ameaçam diretamente a soberania nacional.

Ameaças cibernéticas em escala bilionária

Na parte final da apresentação, Barbosa da Costa expôs dados do campo cibernético: o CIE registrou mais de 754 bilhões de tentativas de intrusão em sistemas digitais brasileiros ao longo de 2025. Segundo o general, parte relevante dessas tentativas teria obtido êxito, favorecida por fragilidades em instituições, inclusive órgãos públicos.

O oficial descreveu essas ameaças como híbridas, envolvendo atores estatais e não estatais motivados por interesses ideológicos ou financeiros, e mencionou que grupos hackers frequentemente contam com financiamento de Estados por trás de aplicativos e outras ferramentas tecnológicas.

O general também tratou da transição do modelo de inteligência do Exército, historicamente apoiado em fontes humanas, para um sistema que incorpora fontes tecnológicas desde 2010 — mudança que, segundo ele, impõe o desafio de capacitar pessoal especializado.

Na sequência, o general Jacy Barbosa Júnior, comandante da Defesa Cibernética, discorreu sobre o tempo e o custo de formação de um operador cibernético — cerca de cinco anos de preparo e investimento de aproximadamente R$ 300 mil. Barbosa Júnior citou o ataque à infraestrutura crítica da Polônia como paralelo ao caso registrado contra a empresa brasileira Dígitro Tecnologia.

O caso Dígitro e o ataque ao governo federal

Segundo dados apresentados pela Defesa Cibernética, em 8 de abril deste ano, a cadeia de suprimentos da Dígitro Tecnologia foi alvo de uma ação que resultou no vazamento de aproximadamente 3,39 terabytes de dados, incluindo bancos de dados, código-fonte e arquivos internos de soluções de inteligência e interceptação legal. 

A empresa é responsável pelo Sistema Guardião, utilizado por forças policiais brasileiras em interceptações telefônicas, e, segundo o general, nove em cada dez empresas de segurança do país utilizam sistemas da companhia.

As informações extraídas do ataque à Dígitro foram disponibilizadas para download na plataforma DDoSecrets. De acordo com Barbosa Júnior, a motivação do grupo responsável não seria financeira, mas ideológica, numa tentativa de emular a atuação do WikiLeaks.

O comandante da Defesa Cibernética relatou ainda um episódio anterior: em 24 de junho de 2025, um ataque provocou negação de serviço em praticamente todo o governo federal, atingindo o domínio gov.br e se propagando para sistemas da Polícia Federal, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), do INSS e do ConectSUS.

Ransomware e o desafio da Inteligência Artificial

O general também abordou o uso de ransomware por organizações criminosas internacionais, destacando o dilema enfrentado por instituições atacadas: pagar o resgate aumenta o risco de novos ataques, enquanto a recusa pode comprometer serviços essenciais — caso de hospitais que dependem de sistemas hackeados para funcionar.

Para encerrar, Barbosa da Costa tratou do desafio que a Inteligência Artificial impõe à Defesa Cibernética, afirmando que a principal preocupação não está na ferramenta em si, mas no controle sobre onde e como os dados são tratados por ela.

Com informações do Jornal Estadão, por Marcelo Godoy

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