Incursão do Avro Vulcan da Royal Air Force no espaço aéreo brasileiro desencadeou uma crise diplomática envolvendo Brasil, Reino Unido e Argentina em pleno conflito do Atlântico Sul
Em 3 de junho de 1982, a Força Aérea Brasileira (FAB) protagonizou um dos episódios mais singulares de sua história operacional ao interceptar um bombardeiro estratégico Avro Vulcan, da Real Força Aérea Britanica (Royal Air Force-RAF) que ingressou sem autorização no espaço aéreo nacional durante a Guerra das Malvinas.
Passados 44 anos do incidente, documentos diplomáticos, relatos operacionais e registros históricos continuam revelando detalhes de um episódio que colocou o Brasil no centro de uma delicada disputa entre Reino Unido e Argentina, em meio ao maior conflito armado ocorrido na América do Sul na segunda metade do século XX.
Naquela manhã, operadores do sistema de vigilância aérea brasileiro detectaram uma aeronave militar britânica aproximando-se do litoral do Rio de Janeiro sem autorização prévia. Em resposta, o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta) acionou dois caças Northrop F-5E Tiger II do 1º Grupo de Aviação de Caça, sediado na Base Aérea de Santa Cruz.
Os pilotos receberam a ordem de decolagem imediata para interceptação real, uma situação raramente vivenciada pela aviação de caça brasileira. Os F-5E partiram em velocidade supersônica, produzindo estrondos sônicos que foram ouvidos em diversas regiões da cidade do Rio de Janeiro e chegaram a provocar danos em vidraças de alguns edifícios.
O alvo da missão era o bombardeiro Vulcan B.2 XM597, que retornava de uma operação de combate sobre as Ilhas Malvinas. A aeronave havia participado da Operação Black Buck 6, uma das missões de maior alcance já realizadas pela RAF.
O objetivo britânico era atacar sistemas de radar utilizados pelas forças argentinas em Port Stanley. Para cumprir a missão, o Vulcan decolou da Ilha de Ascensão e contou com uma complexa cadeia de reabastecimentos em voo realizada por aeronaves-tanque Handley Page Victor.
Durante o retorno ao Atlântico Sul, entretanto, a sonda de reabastecimento da aeronave sofreu uma avaria, impossibilitando novos contatos com os aviões-tanque. Sem combustível suficiente para regressar à Ilha de Ascensão, a tripulação comandada pelo Squadron Leader Neil McDougall passou a procurar uma alternativa de pouso.
A opção encontrada foi o Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro.
Antes de ingressar no espaço aéreo brasileiro, os militares britânicos tentaram eliminar documentos classificados relacionados à missão e também procuraram descartar os mísseis antirradiação AGM-45 Shrike que ainda permaneciam a bordo. Dos dois armamentos remanescentes, apenas um conseguiu ser lançado. O outro permaneceu preso sob uma das asas da aeronave.
Foi nessa condição que o Vulcan entrou no espaço aéreo nacional e acabou sendo interceptado pelos F-5E da FAB.
Após estabelecer contato visual, os caças brasileiros escoltaram o bombardeiro até o Galeão. A situação era tão crítica que, após o pouso, o Vulcan sofreu pane seca durante o deslocamento em solo e precisou ser rebocado para uma área militar.
O incidente rapidamente ultrapassou a esfera operacional e transformou-se em uma questão diplomática de alta sensibilidade.
Embora defendesse uma solução negociada para o conflito, o governo brasileiro mantinha posição favorável às reivindicações argentinas sobre as Malvinas nos fóruns internacionais. Ao mesmo tempo, buscava preservar suas relações com o Reino Unido e evitar qualquer comprometimento de sua política externa.
Documentos posteriormente preservados no Arquivo Nacional revelam que Londres pressionou intensamente Brasília pela rápida liberação da aeronave e de sua tripulação. Em comunicações diplomáticas enviadas ao governo brasileiro, autoridades britânicas demonstraram insatisfação com a decisão de reter temporariamente o bombardeiro.
Os registros mostram que o governo argentino também atuou nos bastidores, solicitando que o Brasil retardasse ao máximo a devolução da aeronave.
Diante desse cenário, o então ministro das Relações Exteriores, Ramiro Saraiva Guerreiro, recomendou ao presidente João Figueiredo uma solução intermediária: liberar o Vulcan, mas reter o míssil AGM-45 Shrike transportado pela aeronave até o encerramento das hostilidades.
A proposta também previa que o governo britânico assumisse o compromisso de não empregar novamente o XM597 em operações de combate durante a guerra. Após uma semana de negociações diplomáticas, o entendimento foi aceito. Em 10 de junho de 1982, o bombardeiro e seus seis tripulantes receberam autorização para deixar o Brasil.
Quatro dias depois, em 14 de junho, as forças argentinas renderam-se nas Malvinas, encerrando oficialmente o conflito.
O destino do míssil AGM-45 Shrike permaneceu cercado de especulações ao longo das décadas. Diversas versões indicam que o armamento teria sido submetido à análise técnica por especialistas brasileiros antes de seu eventual retorno ou descarte. Entretanto, não existem registros públicos conclusivos sobre o destino final do equipamento.
Já o Vulcan XM597 foi preservado e atualmente integra o acervo do National Museum of Flight, na Escócia. Em sua fuselagem, permanece registrada uma pequena bandeira brasileira, referência permanente ao episódio que levou um dos mais famosos bombardeiros da Guerra Fria a pousar sob escolta da Força Aérea Brasileira.
Quarenta e quatro anos depois, a interceptação do Vulcan continua sendo lembrada como um dos momentos mais emblemáticos da defesa aérea nacional, reunindo operações militares, diplomacia internacional e um raro episódio de aplicação prática da soberania brasileira em meio a um conflito internacional.






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