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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Eurosatory 2026: Thales e Renault firmam acordo para produção em massa de drone de ataque

Acordo anunciado no Eurosatory 2026 prevê fabricação de até 1.000 unidades mensais a partir de 2027 e insere a montadora no coração da indústria de defesa francesa


O Grupo Renault e a Thales, anunciaram nesta terça-feira, 16 de junho, no salão de defesa Eurosatory 2026, em  Paris, uma parceria estratégica para a produção em larga escala do drone de ataque Toutatis. O acordo prevê que a Renault passe a fabricar, o drone de ataque de curto alcance da Thales, em uma de suas fábricas, com capacidade de produção de até 1.000 unidades por mês a partir de 2027, voltada principalmente para mercados externos. 


A iniciativa é a segunda parceria de defesa entre os dois grupos — que também colaboram no desenvolvimento de um veículo militar tático — e reforça a presença da montadora francesa em um setor que, até há pouco, estava fora do seu escopo tradicional.


O que é o Toutatis e por que ele importa


O Toutatis é um drone de curto alcance projetado para conflitos de alta intensidade. Versátil, pode ser empregado tanto por soldados a pé quanto lançado a partir de veículos de combate, aeronaves e plataformas navais. 


É resistente a bloqueio eletromagnético e equipado com ogiva configurável conforme a missão, sendo capaz de neutralizar alvos como veículos blindados, mantendo o operador humano no circuito decisório. 


Com envergadura de 0,85 cm e asas dobráveis, o sistema pesa em torno de 5 kg e pode ser transportado por um único soldado. É lançado por tubo e opera a uma velocidade de cruzeiro de 90 km/h. Seu alcance chega a 10 km, com autonomia de voo de 45 minutos. A velocidade máxima de ataque é de 150 km/h e a ogiva tem capacidade de 1 kg, otimizada para engajar alvos levemente blindados.


Capaz de operar em enxame com outros drones, o Toutatis é um sistema escalável, desenhado para se adaptar a requisitos operacionais em evolução. O CEO da Thales, Patrice Caine, resumiu a lógica da parceria: "Partimos da necessidade militar. Examinamos de perto o que está acontecendo em vários teatros de operações, particularmente no Leste, mas não exclusivamente", disse ele durante o anúncio. 


A lógica industrial da parceria


A Thales, produz atualmente cerca de 100 unidades do Toutatis por ano. O acordo com a Renault permitirá aumntar essa produção de forma expressiva ao substituir a impressão 3D — método atual de fabricação — pela moldagem por injeção plástica em maior escala. 


O design do drone será adaptado para viabilizar o novo volume produtivo. Uma redução de 40% no número de peças e fixadores também contribuirá para a queda de custos, segundo o CEO da Renault, François Provost, que destacou que a expertise industrial da montadora vai acelerar e baratear o processo.


Questionado sobre o preço do Toutatis em relação a concorrentes como o Damocles, da KNDS-Delair, e o Akeron RCX 50, da MBDA, Caine afirmou apenas que a munição é "supercompetitiva". Não foram divulgados valores unitários.


A produção poderá ter início já em 2027, com capacidade inicial de 1.000 unidades por mês já no primeiro ano, o que representaria uma ampliação expressiva da capacidade industrial francesa nesse segmento estratégico. 


As empresas deixaram claro, porém, que não há planos concretos para que a França compre volumes significativos das munições em caráter imediato — a demanda imediata está em outros mercados. 


Rearmamento europeu e a reconversão da indústria automotiva


A parceria não surgiu no vácuo. A invasão russa da Ucrânia, combinada à reorientação da política externa dos Estados Unidos, levou países europeus a ampliarem seu gastos em defesa e pressionou fabricantes de armamentos a buscar capacidade ociosa no setor automotivo para aumentar a produção. 


A Renault, nesse contexto, foi abordada pelo Ministério das Forças Armadas da França em fevereiro de 2025, para contribuir com o fortalecimento da base industrial de defesa do país. O papel dos drone ataque nessa equação é direto: os chamados "drones kamikaze" se tornaram centrais no conflito na Ucrânia, onde operações de saturação com sistemas baratos e produzidos em massa vêm alterando a dinâmica das batalhas terrestres.


Mais drones no portfólio da Renault


O acordo com a Thales para o Toutatis se soma a outro projeto já em andamento. Em parceria com a fabricante de drones Turgis Gaillard, sob supervisão da Direction Générale de l'Armement (DGA), a Renault desenvolve o Chorus, um drone de ataque de longo alcance com capacidade para carregar 500 kg de carga a até 3.000 km de distância, velocidade de cruzeiro de 400 km/h e teto operacional de 5.000 metros. 


Um contrato de € 35 milhões foi alocado pela DGA para apoiar o desenvolvimento do programa.  A linha de montagem do Chorus será instalada no chamado edifício "JJ" da fábrica Renault em Le Mans, com capacidade para atingir 600 unidades por mês. 


Um primeiro lote de dez exemplares deve ser entregue à DGA em 2026 para avaliação. A Renault ainda trabalha com o grupo belga John Cockerill — que adquiriu a fabricante francesa de veículos militares Arquus da Volvo em 2024 — no desenvolvimento de um drone terrestre. 


A montadora é enfática em afirmar que a produção de automóveis continua sendo seu negócio central, mas a expansão para a defesa é tratada pela empresa como uso estratégico de capacidade industrial ociosa, a pedido do Estado — do qual o governo francês é acionista com 15% das ações.

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